Um projeto de artesanato para um bazar de Natal. Uma ideia,
a princípio, sem ambições de continuar.
Assim começou o que hoje é a grife Daspre, um dos projetos de sucesso
idealizados pela Funap (Fundação de Apoio ao Preso) em 2008, que tem como
principais participantes detentas de várias penitenciárias femininas de São
Paulo.
O nome do projeto e da grife foi
pensado pela diretora-executiva da Funap, Lúcia Casali. “Estava na minha sala
com a minha sacola da Daslu em cima da mesa. Então pensei: bem, se existe
Daslu, e até Daspu foi inventada, porque não criamos a Daspre, ‘das presas’?”.
Hoje, o Projeto Daspre conta com mais de 70 detentas trabalhando
nas cinco oficinas experimentais divididas entre os presídios de Sant’Anna, Butantã
e Tremembé. Há também uma oficina experimental situada na sede da Funap, na
Vila Buarque, onde algumas detentas do regime semi-aberto, além de
confeccionarem roupas e bolsas, produzem também bichinhos de pelúcia e artigos
para decoração.
“Costura sempre foi o meu forte. Tive uma oficina antes de ser
presa. Quando sair daqui, quero me especializar mais e realizar meu sonho de
ser estilista.”, diz Alessandra Macedo Ribeiro, de 26 anos, presa por tráfico
de drogas. Alessandra trabalha a dois meses na Daspre.
Apesar da grande aceitação do público, o projeto ainda
enfrenta preconceitos. De acordo com a funcionária do Departamento de
Comunicação de Relações Institucionais da Daspre, Marjorie Maluf, cerca de 20%
dos consumidores não aceitam os produtos confeccionados pelas detentas. “Já
aconteceu da Lucia tentar abrir um quiosque da Daspre em um shopping famoso de uma
região nobre de São Paulo. Os clientes, mesmo achando os produtos bonitos, não
compravam ao saber que eram produzidos por presidiárias.”, conta Marjorie. E
justamente para combater esse preconceito, o Projeto Daspre organiza desfiles
onde as próprias detentas usam os modelos confeccionados por elas.
A diferença
Ser diferente. Essa é a principal característica que a grife
busca integrar na produção de suas peças, sempre muito delicadas e artesanais,
além de alegres e estampadas. “Quando uso ou levo para casa, as amigas e os
vizinhos veem e pedem. Querem comprar por ser algo que não vende em todo lugar,
por ser bonito e diferente. Faz sucesso entre as pessoas.”, afirma Patrícia
Silvia, 28 anos, presa há dois anos e vendedora a oito meses da loja Do Lado de
Lá, situada ao lado da sede da Funap, pertencente ao Projeto Daspre.
Os materiais, o
dinheiro e a loja
Segundo Marjorie Maluf, alguns materiais usados pelo projeto
vêm por meio de doações, de pessoas que gostam e apóiam o projeto. O dinheiro
ganho com as vendas também é empregado na compra de material, além de dividido
entre as detentas como remuneração de seu trabalho. Tudo de acordo com a lei do
trabalho prisional, que permite que a cada três dias trabalhados, um dia da
pena seja reduzida.
Segundo a administradora da loja Do Lado de Lá Maria Sônia Correia de Paula, 53, o lugar tem maior
movimento principalmente em datas comemorativas, como o Dia das Mães e às
vésperas do Natal. Porém, com a necessidade de alcançar um maior público, o
projeto procura expor seus produtos em bazares e festivais ao longo do ano.
No entanto, Marjorie afirma que o
principal objetivo do projeto não é vender. “O nosso intuito não é lucrar. O
que nós esperamos é dar uma oportunidade e uma vida digna a essas mulheres.
Milhares de pessoas estão presas, e se pudermos salvar uma parte delas, já é
lucro.”
O antes, o agora e o futuro
Sem ocupação, sem perspectivas de
futuro e muito menos esperança de se integrar no mercado de trabalho após
libertas, muitas ex-presidiárias voltavam a cometer crimes. Depois de fundado o
Projeto Daspre, essa realidade mudou drasticamente.
Segundo dados da Funap, das mais de 1500 presas que passaram
pelo projeto, nenhuma voltou ao crime. “Aqui somos tratadas como funcionárias,
não como presas. Pra gente esse aprendizado é maravilhoso, aprendemos muito e
assim podemos ter um futuro melhor.”, conta Tamira Aparecida Duarte de
Oliveira, 21 anos, detida aos 18 anos por tráfico de drogas.
Atualmente, as detentas que participam do projeto se dizem
muito mais felizes. Fazendo cursos de costura, de bordado ou de artesanato, as
presas sonham com um futuro melhor fora das grades. A maioria delas, segundo Marjorie,
consegue se empregar e continuar trabalhando nessa área mesmo depois de
libertas. E, como afirmam os idealizadores e colaboradores, essa é a maior
gratificação que podem receber.
(Matéria feita junto com Tamires Camargo, entre setembro/outubro de 2011)
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